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15/04/2018 às 13h58min - Atualizada em 15/04/2018 às 13h58min

Ataque à liberdade

Incitar agressões a profissionais de comunicação apenas por noticiarem fatos é uma estupidez que fere os pilares da democracia. No Brasil, isso é mais comum do que se pensa

Ataque à liberdade

Só em ambientes autoritários se vê tanto esforço para reprimir e calar a imprensa como atualmente no Brasil. Ameaçar e agredir jornalistas virou uma prática corriqueira nas últimas semanas. Pelo menos 20 profissionais foram atacados e sofreram algum tipo de violência. O alvo principal tem sido o grupo Globo, mas houve farto veneno distribuído para toda a mídia. Em seu último discurso antes de embarcar para a prisão, dia 7, Lula atacou com ira os veículos de imprensa que cobriram ao longo dos anos os escândalos e as roubalheiras perpetradas por ele e seu partido. O pronunciamento foi a senha para que uma militância fanática partisse para agressões físicas e verbais contra repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, assistentes e motoristas de TVs, rádios, jornais e revistas que estavam trabalhando dentro ou nos arredores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.


No pior caso, o repórter Pedro Durán, da rádio CBN, foi atacado no saguão do sindicato logo após entrevistar o ex-ministro Celso Amorim. Grades de proteção e garrafas d’água foram arremessadas contra ele, que teve de sair do local pelo subsolo para não ser agredido por uma multidão, mesmo estando ao lado de dirigentes partidários e seguranças. “Sim! Estou te ameaçando! Que parte da ameaça você não entendeu?”, disse o agressor antes de empurrá-lo contra uma divisória de vidro. Durán sofreu escoriações, mas seguiu até terminar seu trabalho. O episódio foi filmado. A violência começou ainda na noite de quinta-feira 5, quando o fotógrafo Nilton Fukuda, a serviço do jornal O Estado de S. Paulo, foi insultado e atingido por ovos lançados por um homem que vestia uma camiseta da CUT. Alguns profissionais foram ameaçados de morte mais de uma vez. No sábado, a repórter da rádio BandNews Gabriela Mayer levou um tapa de uma militante que ainda tentou roubar seu celular. Uma equipe da RedeTV News interrompeu a cobertura quando começaram xingamentos e arremessos de latinhas e copos. “Todo mundo virou alvo”, disse Caio Rocha, da Rádio Jovem Pan, ameaçado de morte por seguranças quando estava do lado de fora do sindicato. Ele e outros colegas tiveram de sair dali pelo portão de um estacionamento que dava para outra rua. Horas depois, no aeroporto de Congonhas, uma equipe da TV Globo teve que se retirar após ser hostilizada.


Como era de se esperar, as principais entidades de classe do jornalismo se manifestaram contra os episódios no Sindicato dos Metalúrgicos. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) classificou os fatos como “injustificáveis”, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) emitiram uma nota conjunta contra a covardia decorrente da “intolerância e da incapacidade de compreender a atividade que é a de levar informação aos cidadãos”. Mas o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, subordinado à CUT, traiu a classe. Apesar de condenar genericamente as agressões, a entidade fez vista grossa ao autoritarismo galopante, colocou a culpa da violência nas empresas de comunicação, que adotaram uma linha editorial “de hostilidade contra organizações populares” e concluiu dizendo que a democracia só será possível com “Lula livre”. Trata-se de um contorcionismo cognitivo.


Entre as democracias, o Brasil tem sido um dos lugares mais inóspitos para se praticar o jornalismo. Desde 2013, grupos que adotam a estratégica black bloc de confronto aproveitam grandes manifestações para depredar patrimônio e intimidar jornalistas. Um grupo de mascarados bloqueou as entradas da Editora Abril, que edita a revista Veja, queimando exemplares após serem criticados em uma reportagem. Cinegrafistas do SBT e da Globo foram perseguidos, agredidos e tiveram os equipamentos quebrados nos arredores da Praça da República em uma greve de professores, em abril de 2015. No ano passado, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), houve 99 casos de agressões contra profissionais da imprensa e uma morte: o blogueiro Luis Gustavo da Silva foi brutalmente assassinado no Ceará. Em 2016, foram 161 agressões e cinco mortes.


Em 2018, o ritmo da violência está mais acelerado. Não só pela guerra aberta do PT contra a imprensa liberal, mas também por causa de conflitos locais. Em janeiro, o jornalista Ueliton Bayer Brizon, proprietário do site Jornal de Rondônia, foi assassinado na cidade de Cacoal, quando circulava de moto com sua mulher na garupa. Também em janeiro, em Edealina, Goiás, Jefferson Pureza Lopes, apresentador da rádio Beira Rio FM, foi baleado e morto dentro da própria casa.


De acordo com a ONG Jornalistas Sem Fronteiras, regimes autoritários encarceraram 327 profissionais em 2017. Quem mais prendeu foi a China, com 52 casos, seguida da Turquia, com 43 presos, e da Síria, com 24. Nesses lugares, democracia e liberdade de imprensa inexistem. Sociedades amadurecidas precisam conviver com uma imprensa que não tenha receio de pisar em calos, atuando como “fórum público de permanente cobrança, em todas as direções”, conforme escreveu Michael Schudson, professor da Universidade Columbia que estudou a formação da opinião pública no livro “Por Que Democracias Precisam de uma Imprensa Desagradável”. Ainda mais direta é a definição de Carl Bernstein, jornalista norte-americano que, junto com Bob Woodward, investigou o Escândalo de Watergate, que culminou na renúncia do presidente dos EUA Richard Nixon. “A busca da verdade depende da boa reportagem”. Foi o que jornalistas tentaram fazer o tempo todo no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.


 



 




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AUTOR/FONTE: André Vargas

Luiz Carlos Atagiba

([email protected]­m.br)