Isso está previsto na nossa Constituição. Concordo que plebiscito não pode ser banalizado, mas está previsto para assuntos que devem passar por um processo amplo de discussão. Não é rotulação: os que são contra não podem ficar rotulando os que são a favor e os que são a favor não podem ficar dizendo que são dogmáticos, conservadores, atrasados, os que têm posicionamento contra.


BBC News Brasil - A despeito da sua posição pessoal, a senhora sancionaria um projeto de lei de aborto que fosse aprovado pelo Congresso?


Marina - O aborto já é previsto na legislação brasileira.


BBC News Brasil - Sim, mas para casos restritos. A Argentina acaba de aprovar na Câmara um projeto que legaliza o aborto até a décima quarta semana...


Marina - (interrompendo) Por isso que eu defendo o plebiscito. O plebiscito é a vontade soberana da sociedade.


BBC News Brasil - Com aprovação apenas do Congresso, não?


Marina - Eu defendo o plebiscito porque eu acho que 200 milhões de brasileiros são mais representativos para algumas situações do que apenas 513 deputados. Essa é minha posição, defendo o plebiscito.


BBC News Brasil - Por outro lado, temos uma bancada evangélica cada vez maior que tem trazido pautas de cunho religioso para o Estado brasileiro. Há projetos de lei que tornariam o ensino religioso obrigatório ou projetos como Escola Sem Partido. Qual é a sua opinião?


Marina - O ensino religioso já é previsto nas escolas, como uma disciplina opcional. As escolas confessionais dão o ensino religioso, eu mesma estudei em uma escola católica em que o ensino de religião era dado pelas freiras, mas como matéria opcional. Obviamente que sem prejuízo das disciplinas que ensinam cientificamente como foi feita a criação do mundo e assim por diante.


Isso já está resolvido. É possível o ensino religioso, só que de uma forma ampla, não é fazendo proselitismo para uma religião, é abordando a questão de uma forma interreligiosa.


BBC News Brasil - A senhora, na condição de evangélica, teria alguma dificuldade em eventualmente barrar pautas da bancada evangélica?


Marina - Você impor a um Estado laico o ensino da religião, isso não tem base constitucional. Eu acho interessante que as pessoas fazem essa pergunta pra mim, dessa forma, e eu sinto um pouco de preconceito.


Eu fui católica durante muitos anos e sempre tive as mesmas posições em relação a essas questões que eu hoje tenho e ninguém nunca me perguntou. Agora, como sou cristã evangélica, as pessoas fazem essas perguntas, fazendo generalizações, como se todos os evangélicos tivessem que ter a mesma postura. O Estado laico foi uma contribuição da Reforma Protestante, foram os cristão evangélicos reformistas que lutaram para que se tivessem escolas que não fossem apenas confessionais, para que se tivesse uma separação do Estado e da religião.


Quem defende a transformação do Estado em um Estado teocrático é porque não entende a grande contribuição que foi dada pelos cristãos evangélicos para fazer essa separação. Agora, obviamente temos que reivindicar o direito à liberdade religiosa, porque a liberdade de expressão não é só para expressar os sentimentos de quem é contra a religião, é para expressar o pensamento daqueles que são a favor. Isso é a democracia.


BBC News Brasil - A senhora manteria a reforma trabalhista do Temer?


Marina - Nas bases em que foi aprovada, não. Ela precisa ser revista. Tanto precisa que o próprio presidente Temer mandou uma medida provisória revendo vários aspectos que criticamos durante a tramitação.


Como a medida provisória não foi aprovada no Congresso, estamos com uma reforma trabalhista que prejudica apenas os trabalhadores, porque ouviu apenas um lado, e comete atrocidades como uma mulher grávida poder trabalhar em situação de risco, como uma pessoa ter apenas 30 minutos para fazer as suas refeições, e dificulta o acesso à Justiça porque as custas do processo e os honorários advocatícios serão pagos por quem perder a causa.


Ora, se você tem pessoas pobres em situação de fragilidade, hoje, elas pensam duas vezes antes de entrar na Justiça porque sabem que não têm como pagar as custas e os honorários advocatícios caso venham a perder a causa. Isso está dificultando o acesso à Justiça.


Se está resolvendo um problema, que era a indústria de processos, se está criando uma indústria de injustiçados. Quando se diz que o negociado se sobrepõe ao legislado, eu acho até que é uma forma errada, o que está na lei não pode ser ultrapassado, o que não é obrigatoriedade de lei, aí sim pode ser negociado entre empregado e empregador, mas não se pode dizer que há uma categoria de direitos em que a lei não vale, o que vale é o acerto no paralelo, ao arrepio da lei.


BBC News Brasil - Sobre a reforma da previdência, a senhora reconhece um rombo na previdência? Qual o seu caminho para solucioná-lo?


Marina - Há necessidade sim de uma reforma da previdência, temos uma gravíssimo problema de deficit, mas obviamente que a reforma não pode ser feita da forma como o presidente Temer a apresentou. Inclusive dificultando e prejudicando o debate sobre a previdência, porque ele só escutou um lado mais uma vez e, sem legitimidade e credibilidade, ele seria a última pessoa a ter condição de fazer um debate tão sensível para a sociedade brasileira.


Temos que enfrentar a reforma da previdência porque temos um deficit, vamos perder o bônus demográfico, e há uma mudança na expectativa de vida das pessoas no Brasil. Mas não se pode fazer uma reforma da previdência para dizer que trabalhadores rurais são iguais a trabalhadores urbanos, que para fazer jus à aposentadoria por tempo de serviço tem que se contribuir durante 25 anos em um país em que as pessoas não conseguem carteira assinada às vezes por um ou ano ou dois seguidos.


Não se pode fazer uma reforma da previdência para dizer que para aposentadoria integral precisa contribuir 49 anos. É preciso que se crie uma transição para aqueles que estão próximos de se aposentar e aqueles que estão entrando no futuro regime.


BBC News Brasil - A senhora cogitaria um aumento da idade mínima? Diminuição do teto do benefício? Capitalização?


Marina - Eu acho que nesse momento nenhum dos candidatos está apresentando um projeto integral de reforma da previdência. Em 2014, quem visitar as minhas diretrizes de governo vai verificar que nós falávamos de um regime de capitalização. Aliás, fico feliz de ter dito em 2010, quando os partidos nem falavam em reformas porque todo mundo quer ganhar voto sem dizer exatamente o que pensa.


Precisamos encarar os problemas dos privilégios, que não foram enfrentados pelo governo Temer, é preciso fazer a reforma com transparência e não imagino que seja preciso muito tempo para fazer esse debate. No começo do governo isso precisa ser feito, mas ouvindo trabalhadores, ouvindo empresários, ouvindo especialistas, ouvindo o próprio governo. É assim que vamos fazer a reforma da previdência.


BBC News Brasil - Seus assessores falam em "com certeza" privatizar a Eletrobras. O que mais a senhora privatizaria? Petrobras? Bancos públicos?


Marina - Não são meus assessores, são meus colaboradores. Assessores são pessoas pagas profissionalmente, não é o caso. São meus colaboradores e que tenho a felicidade de tê-los, porque o André Lara Resende é um dos criadores do plano Real e altamente respeitado e igualmente o Eduardo Giannetti, que colaborou comigo desde 2010.


Eu não tenho uma visão dogmática em relação a reformas, mas antecipo que não vamos privatizar nem a Petrobras, nem a Caixa Econômica, nem o Banco do Brasil. Privatizações podem ser feitas, mas qual é o plano de privatização? Como diz o próprio Giannetti, você vai privatizar um ativo como a Eletrobras apenas para tapar o rombo do governo. Não se vendem as joias da família para almoçar fora. Qual é o plano?


E outra coisa que precisa ser respondida é: qual é a política energética que vai ser implementada nos próximos 10, 15, 20, 30 anos? É de grandes barragens para destruir a Amazônia? Porque a expertise da Eletrobras é fazer barragem. É também a condução de energia. Mas, se for pra ser privatizada, aquele que for comprar esse ativo precisa saber qual é o espaço de investimento que ele tem, porque se o governo vende esse ativo por um preço com a expectativa de quem o está adquirindo de que vai fazer grandes barragens e nós não vamos fazer um processo de diversificação da matriz energética, utilizando apenas aqueles aproveitamentos hídricos que têm viabilidade econômica, social e ambiental e vamos investir pesado em energia solar, eólica e de biomassa, então se está vendendo um ativo talvez por um valor que não tem a capacidade de retorno. Esse debate é que precisa ser feito.


BBC News Brasil - Sobre ajuste fiscal e teto dos gastos, qual é seu posicionamento?


Marina - Em 2010, apresentamos uma proposta de limitar o gasto público à metade do crescimento do PIB. Se o PIB cresceu 4%, a metade pode ser utilizada pelo governo. O Temer só colocou a correção pela inflação, eu estou colocando crescimento real, não é só ajustar o que a inflação comeu.


O país cresceu e o governo conseguiu arrecadar e, então, a metade do que foi arrecadado pode sim ser usado. Completamente diferente (do teto dos gastos do Temer). Como dizem meus colaboradores economistas, não poderemos ter uma visão excessivamente fiscalista e o governo está congelando o país por 20 anos.


BBC News Brasil - A intervenção federal com as Forças Armadas no Rio foi correta?


Marina - Não se pode generalizar, mas desconheço qualquer um que defenda que o Rio de Janeiro deveria ficar entregue à sua própria sorte. Vai resolver? Com certeza, não, porque a resolução é estrutural, você tem uma situação eventual, uma contingência e imagino inclusive que os militares não se sentem bem cumprindo esse papel de substituir aquilo que a Constituição delega que seja feita pelos Estados, pela PM e pela Polícia Civil.