29/12/2024 às 09h36
Redação
Campo Grande / MS
Os muitos lances da perseguição que o ministro Alexandre de Moraes move ao ex-deputado Daniel Silveira parecem extraídos de páginas perdidas por Vitor Hugo, antes, bem antes, de escrever sua obra prima – Os Miseráveis. O primeiro traço a unir os dois relatos, tornando inevitável a analogia, é o caráter obstinado da caçada que o inspetor Javert move contra o personagem Jean Valjean e o denodo com que o ministro Alexandre de Moraes se empenha em deixar Daniel Silveira mofando no cárcere. O segundo, diz respeito ao ritmo do livro – assim como o policial reaparece na vida de sua vítima ao longo dos anos, assim também, o ministro irrompe em circunstâncias inesperadas, a infernizar o cotidiano de Daniel, perenizando o flagrante eterno e eternizando sua vingança.
Daí por diante, cessam as analogias. Jean Valjean era um ladrão cujo caráter piorou na prisão, mas conheceu o bem na pessoa do monsenhor Bienvenu e se tornou um homem sumamente bom. Seu algoz, o policial Javert, era incapaz de sentimentos amáveis, não reconhecia o bem nem quando beneficiário dele; viveu cerca de duas décadas no encalço do foragido Jean Valjean.
A lei aprazia Javert por sua capacidade de produzir sofrimento pois, como já sabiam os latinos, “o máximo do direito é o máximo da injustiça”. Fico imaginando o que faria ele se lhe fosse dada a prerrogativa de escrever a lei ou de interpretá-la na medida de seu arbítrio.
Daniel Silveira foi condenado por algo que disse na tribuna e no vídeo que gravou, entendendo-se agasalhado pelo Art. 53 da Constituição Federal. A restrição à liberdade de expressão que já atingira a tantos, começou a relativizar, ali, a própria inviolabilidade dos parlamentares por “quaisquer opiniões, palavras ou votos”. O caso Daniel Silveira abriu a porteira. A partir de então, os 594 vizinhos do outro lado da praça ficaram expostos a um cala-boca que assegurou a silenciosa passividade da maioria dos congressistas. A omissão dos presidentes das duas casas legislativas e a tibieza do Centrão, ferraram a representação popular.
O modelo é típico. Qualquer pessoa que conviva com algum desses milhares de “coletivos” de maioria esquerdista que se disseminaram nas estruturas públicas estatais ou não estatais sabe que a extrema esquerda, no poder, abusa do poder. A insatisfação manifesta nos apenas 12% de aprovação popular concedidos ao STF, detectados em pesquisa de PoderData divulgada na semana passada, é uma das consequências diretas dessa percepção.
Não creiam, porém, os membros dos outros dois poderes que tal rejeição afeta apenas o STF, que, não precisando de votos, poderia prosseguir dobrando apostas indefinidamente. Não, bem ao contrário, a rejeição está unindo a nação pelo lado oposto! O dano se espalha, também, sobre o governo, como demonstraram as eleições municipais do último mês de outubro. O estrago chega ao poder Legislativo, pois a sociedade percebe as digitais do Centrão na omissão dos presidentes e nas maiorias das duas casas. E chega, por fim, à imprensa oficial, militante na defesa desse acordo absolutista, a cujo querer e poder tudo mais é relativo, como aprazeria ao implacável policial Javert, de “Os miseráveis”. A nação não quer tiranias, sejam de que feitio forem.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras
FONTE: Percival Puggina
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