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29/09/2025 às 09h37

Redação

Campo Grande / MS

A arte de construir uma boa narrativa
Percival Puggina
A arte de construir uma boa narrativa
Foto Arquivo

Como se constrói uma “narrativa” ao gosto de quem a queira, usando fatos reais? Conto, aqui, o que aprendi sobre a tal “trama golpista” enquanto revia fotos de 2012 tomadas durante longa viagem pelo interior da França. Naquele ano, ao planejar nossas férias, minha mulher e eu concluímos que a melhor essência daquele país estava em suas pequenas cidades medievais. Identifiquei haver 70 cidades nessa categoria e precisei escolher 25. Solução: descartei todas que não cabiam no meu roteiro. Bingo! A constatação esclareceu um ponto muito importante sobre a trama que teria eclodido em 8 de janeiro de 2023.


Organizei, então, uma lista com os principais acontecimentos políticos brasileiros no período entre 1º de janeiro de 2019 e aquela fatídica data (governo Bolsonaro e primeiros 8 dias do governo Lula). Ficou fácil perceber algo muito interessante sobre a narrativa oficial da “Abolição violenta do Estado Democrático de Direito e Golpe de Estado”:


dos inúmeros acontecimentos e tensões políticas do período, os autores da narrativa escolheram os que convinham e descartaram os que não convinham!


Ou seja, com integral apoio da velha imprensa, selecionaram apenas fatos relacionados à direita e ao bolsonarismo. Sequer mencionam a existência do STF, do TSE e de seus ministros!


Tudo se passa como esse poder de Estado, que se assumiu como político e desenvolveu intenso protagonismo, se mantivesse passivo em seu devido lugar de estar, sem ativismo e sem “excepcionalidades” típicas de um regime de exceção.


Para ilustrar, ao final deste artigo, mostro uma lista de acontecimentos relevantes do mencionado período, buscados no Google, Wikipedia e ChatGPT. Uma lista completa seria ainda muito mais extensa.


É interessante perceber que do mesmo modo, pelo viés oposto, excluindo-se da mesma lista de fatos o bolsonarismo e a direita, tem-se a nítida formação de um regime de exceção sob comando do STF. Não por acaso, a partir do 8 de janeiro de 2023, ele apenas ganhou força e o Congresso nada mais decide sem, antes, pedir bênçãos ao Supremo... Tanto uma narrativa quanto a outra peca por excluir as interações e as motivações recíprocas das forças políticas em choque. Pense nisso. Também por isso a anistia é indispensável.


Fatos relevantes do período 2019-2022



  •  Ano de 2019

  • Congresso debate reforma da Previdência.

  • Tragédia de Brumadinho.

  • Prisão de Michel Temer no inquérito da Lava Jato.

  • À margem do Legislativo, STF começa a debater homofobia e transfobia; meses depois cria tipo penal por analogia ao racismo.

  • Ministro Dias Toffoli censura site O Antagonista e a Revista Crusoé pela matéria sobre “o amigo do amigo de meu pai”.

  • Ministro Dias Toffoli abre de ofício inquérito das fake News e, sem sorteio, entrega a relatoria ao colega Alexandre de Moraes.

  • Começa a Vaza Jato com revelações de conversas entre o juiz Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato.

  • Crise ambiental da Amazônia e vazamento de petróleo em alto mar chega ao litoral do Nordeste.

  • STF “revisita” decisão anterior sobre prisão após condenação em 2ª instância e Lula sai da prisão.

  • Ano de 2020

  • Torna-se mais nítido o antagonismo entre os grupos da imprensa tradicional e o governo Bolsonaro.

  • COVID 19 chega ao Brasil.

  • Crescem tensões entre Executivo, STF e o Legislativo.

  • STF amplia competências de Estados e municípios sobre isolamento social durante a pandemia.

  • STF impede nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal, em vista de suas relações com o presidente da República.

  • Sem produzir o efeito esperado, o STF requisita e divulga vídeo de reunião ministerial sobre interferências do Supremo em atividades e pautas do governo.

  • STF proíbe operações policiais em favelas durante a pandemia.

  • STF determina que as plataformas das redes sociais promovam a remoção de conteúdos considerados falsos sobre vacinas e tratamento precoce com ênfase à cloroquina.

  • Governo Bolsonaro se aproxima do Centrão para garantir governabilidade.

  • Ano 2021

  • Artur Lira e Rodrigo Pacheco assumem as presidências da Câmara e do Senado.

  • Câmara autoriza prisão em flagrante do deputado Daniel Silveira determinada pelo STF.

  • STF confirma anulação das condenações de Lula na Lava Jato, devolvendo-lhe os direitos políticos.

  • Governo divulga mais de uma centena de interferências do Supremo em atos e ações do governo.

  • Senador Randolfe Rodrigues atua como agente provocador dessas ações, envolvendo meio ambiente, pandemia, vacinas, educação, auxílio emergencial, oxigênio e apoio logístico para o Amazonas, tratamento precoce da COVID, etc.

  • STF amplia seu protagonismo político, tornando-se o centro nervoso do noticiário nacional, com cobertura dos grandes meios de comunicação e antagonismo das redes sociais.

  • Governo convoca a gigantesca manifestação do dia 7 de setembro, na qual Bolsonaro faz discurso atacando ministro do Supremo; dias depois volta atrás e se desculpa.

  • Ministro Luís Roberto Barroso vai ao Congresso pressionar contra a adoção do voto impresso.

  • Bolsonaro se filia ao PL e estrutura sua campanha à reeleição com apoio do Centrão.

  • Candidatos apoiados por Bolsonaro têm desempenho fraco nas capitais.

  • Partidos do centrão obtêm melhores resultados nas eleições municipais.

  • Ano de 2022

  • Campanhas eleitorais começam a se articular.

  • Bolsonaro intensifica críticas ao STF e ao TSE, questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas.

  • Lula consolida alianças partidárias para a candidatura presidencial.

  • Alckmin deixa o PSDB e se aproxima do PT, sendo anunciado como provável vice de Lula.

  • Bolsonaro se filia ao PL e estrutura sua campanha à reeleição com apoio do Centrão.

  • Ministro Fachin se reúne no TSE com embaixadores para afirmar a confiabilidade das urnas eletrônicas.

  • STF mantém investigações sobre fake news e ataques à democracia.

  • Bolsonaro convida embaixadores para expor a eles sua própria posição a respeito do sistema eletrônico de votação (ato que lhe custou posterior condenação e inelegibilidade determinada pelo TSE).

  • Campanha eleitoral transcorre com redobradas queixas do bloco governista sobre atuação do TSE comandado pelo ministro Alexandre de Moraes.

  • Pressões do TSE sobre plataformas, proibição de temas e vocábulos, desmonetizações, fechamento de páginas e canais, redução da propagação pelas redes sociais; sanções a Brasil Paralelo, Jovem Pan, Oeste Sem Filtro, Terça Livre, etc.

  • Lula é eleito presidente com 50,9% contra 49,1% de Bolsonaro, a eleição mais acirrada da história.

  • Ministro Luís Roberto Barroso interpelado por um cidadão em Nova Iorque, responde: “Perdeu Mané. Não amola”.

  • Presidente do TSE, Alexandre de Moraes, é ovacionado durante cerimônia de diplomação de Lula e ouve o ministro Benedito Gonçalves sussurrar: “Missão dada, missão cumprida”.

  • Tumulto e depredação após diplomação de Lula diante da sede da Polícia Federal pela prisão do cacique Xavante Serere.

  • Iniciam protestos em frente aos quarteis; Bolsonaro entra em regime de silêncio, pede a caminhoneiros que retomem atividades e viaja para os Estados Unidos.


Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras

FONTE: Percival Puggina

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