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07/01/2026 às 06h33

Redação

Campo Grande / MS

Brasil: identidade sem molde
David Gertner
Brasil: identidade sem molde
Foto Divulgação

Ser brasileiro não cabe em definição rígida. Não é atributo genético, nem identidade herdada por decreto. É uma vivência atravessada por contrastes — muitas vezes simultâneos — que moldam comportamentos, expectativas e silêncios.


É crescer aprendendo a contornar obstáculos antes mesmo de entendê-los. A criatividade surge menos como luxo e mais como ferramenta de sobrevivência. Daí nasce a engenhosidade que encanta, mas também o hábito de aceitar soluções provisórias como se fossem finais. O improviso salva o dia; raramente transforma o país.


A formação do Brasil não produziu síntese simples. Produziu camadas. Povos indígenas marginalizados, africanos escravizados, imigrações sucessivas, deslocamentos forçados e escolhas tardias de pertencimento. O resultado é um mosaico rico, mas desigual, no qual convivem inclusão simbólica e exclusão concreta.


Há uma relação ambígua com a dor. Ela é reconhecida, mas frequentemente diluída em humor, música, festa e ironia. A cultura amortece o impacto da realidade — o que ajuda a suportá-la, mas também pode retardar enfrentamentos necessários. A celebração convive com a ausência. A leveza, com a injustiça.


A desigualdade, por sua vez, deixou de causar espanto. Tornou-se cenário. Indigna por instantes, normaliza-se com rapidez. O país se acostumou a conviver com o inaceitável enquanto repete promessas de correção futura. O amanhã serve, muitas vezes, como álibi para a inação do presente.


Na política, a oscilação é constante: desconfiança nas instituições combinada com fé excessiva em figuras individuais. Rejeita-se o sistema, mas busca-se o salvador. Alternam-se ceticismo e esperança sem que se consolide responsabilidade cívica duradoura.


Ainda assim, existe uma força difícil de negar: a capacidade de criar vínculos onde o Estado não chega. Redes informais, solidariedade prática, humanidade no cotidiano. O contato direto, o riso compartilhado, a escuta espontânea — quando não degeneram em complacência — sustentam o tecido social.


Talvez ser brasileiro seja habitar essa fronteira instável entre potencial e desperdício. Entre o que se intui possível e o que se aceita como inevitável. Não é identidade concluída. É processo. E, sobretudo, escolha contínua entre repetir padrões ou assumir, enfim, o custo da mudança.


David Gertner, Ph.D., é escritor e professor aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, viveu por mais de três décadas nos Estados Unidos, onde construiu carreira acadêmica. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David (Amazon) e dedica-se à escrita de ensaios e livros sobre identidade, memória, ética, silêncio, tempo e a condição humana.

FONTE: David Gertner

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