14/01/2026 às 10h12
Redação
Campo Grande / MS
Em um artigo publicado nos Estados Unidos e incorporado em um livro comemorativo dos 60 anos do Colégio Interamericano de Defesa, subordinado à Organização dos Estados Americanos (OEA), o General de Exército André Luis Novaes Miranda, ex-integrante do Alto Comando do Exército Brasileiro e Comandante de Operações Terrestres até abril de 2025, defende que a liderança militar no nível estratégico ultrapassa os limites das Forças Armadas e exerce forte influência sobre a estrutura do Estado, tese que ganha relevância diante da recente condenação de vários oficiais generais no último posto pelo Supremo Tribunal Federal.
O texto integra o livro “Problemas hemisféricos requieren soluciones hemisféricas – O Colégio Interamericano de Defesa e a Formação do Líder Estratégico”, publicado em 2022 e apresenta uma visão segundo a qual, ao atingir o topo da hierarquia, o oficial-general deixa de ser apenas um executor dentro da estrutura militar para se tornar um agente capaz de moldar decisões com impactos institucionais, orçamentários e políticos para o país como um todo.
A tese ganha destaque em um momento sensível da política nacional, quando parcela significativa da classe política defende a atuação das Forças Armadas como uma espécie de poder moderador e vários oficiais generais no último posto da Marinha e Exército Brasileiro acabaram condenados pelo Supremo Tribunal Federal.
Do campo de batalha ao centro do Estado
No artigo, o general estabelece uma distinção clara entre os níveis tático, operacional e estratégico da liderança militar. Enquanto os dois primeiros concentram-se na execução de missões e no emprego direto de tropas, o nível estratégico envolve decisões amplas, que podem extrapolar o ambiente militar.
No caso brasileiro, esse nível inclui o Comandante do Exército, o Chefe do Estado-Maior e os integrantes do Alto Comando, responsáveis por definir visão de futuro da Força, cultura institucional, prioridades orçamentárias, programas estratégicos e diretrizes gerais.r .
Decisões que projetam o futuro
O texto enfatiza que as decisões estratégicas não são imediatas nem conjunturais. Elas produzem efeitos de médio e longo prazo, com horizonte que pode ultrapassar cinco anos. É nesse nível que se define não apenas como a Força atua no presente, mas qual será seu papel futuro na estrutura do Estado.
Entre as atribuições da alta liderança estão a definição da cultura militar, a destinação de recursos, a reestruturação organizacional e a formulação de diretrizes que orientam toda a atuação institucional. Essa concentração decisória confere à cúpula militar um papel estruturante, capaz de influenciar a capacidade do Estado de responder a crises, organizar sua defesa e interpretar ameaças regionais.
Um dos conceitos centrais do artigo é o de “estado final desejado”. Para o general, o líder estratégico é aquele capaz de projetar com clareza onde a instituição e até o país devem chegar.
Essa liderança envolve criar senso de urgência, articular recursos, propor caminhos viáveis e exercer influência indireta. Nesse contexto, o comando deixa de ser apenas hierárquico e passa a envolver persuasão, articulação interinstitucional e capacidade de coordenar organizações civis, militares e internacionais.
O general menciona que o líder deve dominar a arte da persuasão: “Ele comunicará com clareza, exercerá de forma inteligente a liderança indireta, dominando a arte de persuasão, obterá sinergia…”.
Poder civil e decisão final
Em última instância, é o governo eleito quem comanda e define os rumos das Forças Armadas. Ainda assim, a manutenção das missões de oficiais brasileiros no Colégio Interamericano de Defesa, mesmo após a condenação oficial da ação militar norte-americana na Venezuela, ocorrida em 3 de janeiro, condenada pelo governo brasileiro na OEA, evidencia como a política de formação estratégica segue uma lógica institucional própria, construída ao longo de décadas plos comandos da Marinh, Exército e Força Aérea.
O fato de o Colégio Interamericano de Defesa estar sediado nos Estados Unidos leva parte da comunidade acadêmica e da opinião pública a interpretar, de forma geral, essa política de formação como sinal de dependência estrutural ou subordinação doutrinária a Washington.
Críticos apontam que, embora documentos oficiais de defesa mencionem autonomia estratégica e protagonismo regional, a formação dos quadros superiores permanece fortemente ancorada em estruturas norte-americanas. Como o próprio artigo do general ressalta, a liderança estratégica produz efeitos duradouros, moldando visões de mundo, percepções de ameaça e prioridades institucionais.
Ao sustentar que líderes militares estratégicos influenciam diretamente o Estado nacional, o General André Luis Novaes Miranda descreve não apenas um conceito doutrinário, mas uma dinâmica real de poder aparentemente ensinada no Colégio Interamericano de Defesa, na qual formação internacional, redes acadêmicas e influência intelectual produzem efeitos que se projetam muito além dos quartéis e alcançam o centro das decisões do Estado brasileiro.
FONTE: Robson Augusto