25/02/2026 às 06h26
Redação
Campo Grande / MS
Está demorando demais.
O inquérito das fake news foi aberto em 2019. Sete anos depois, ele continua. E continua crescendo. Novos fatos são incorporados, novos personagens entram em cena, novos episódios passam a orbitar o mesmo procedimento — como se fosse possível acomodar indefinidamente qualquer conflito institucional sob um único rótulo.
O próprio ministro Alexandre de Moraes já afirmou que, se depender dele, o inquérito pode seguir até 2027 — justamente o ano em que deverá assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. Ou seja: o procedimento aberto sob a presidência de Dias Toffoli atravessou Luís Roberto Barroso, segue sob Edson Fachin e pode atravessar mais um ciclo de comando.Inquérito não foi concebido para atravessar eras.
O que começou como reação a ataques digitais contra a Corte passou, ao longo do tempo, a incluir censura à revista Crusoé, investigações sobre manifestações, bloqueios de perfis, empresários, parlamentares, jornalistas e, mais recentemente, servidores da Receita Federal. Uma servidora de carreira submetida a medidas severas. O presidente da Unafisco investigado após conceder entrevistas criticando a operação.
Esses episódios não nasceram juntos. Não têm a mesma origem. Não compartilham o mesmo núcleo fático. São contextos distintos, circunstâncias próprias, histórias diferentes.
Colocá-los dentro do mesmo inquérito extrapola a lógica clássica de uma investigação delimitada.
Se houve vazamento de dados sigilosos, que se apure com rigor. Mas que se apure dentro dos limites adequados, com objeto claro e responsabilidade definida. O que não é razoável é transformar um inquérito de sete anos em uma estrutura expansiva que absorve fatos desconectados entre si.
Nos anos 1990, a Marvel publicou a trilogia clássica escrita por Jim Starlin: Desafio Infinito, Guerra Infinita e Cruzada Infinita. Thanos reúne as Joias do Infinito — Espaço, Mente, Realidade, Poder, Tempo e Alma — e, com a Manopla, passa a exercer domínio sobre o universo. Cada novo capítulo amplia o conflito, mas mantém coerência narrativa. Há roteiro. Há amarração. Há começo, desenvolvimento e consequência.
Mesmo no caos cósmico, existe estrutura.
No caso brasileiro, o problema não é o enfrentamento de abusos ou ataques institucionais.
O problema é a expansão indefinida sem delimitação clara. Novos personagens entram na trama sem conexão orgânica com o ponto de partida. Novos capítulos surgem sem que se compreenda exatamente qual é o fio condutor.
A sensação é de que o roteiro se amplia sem que haja uma conclusão previsível.
Isso não constrange apenas os investigados. Constrange o próprio Judiciário. Juízes de carreira — concursados, formados sob a lógica da legalidade estrita — acabam tendo sua imagem confundida com decisões que partem do topo da estrutura. Magistrados que chegaram ali por mérito veem sua instituição ser associada a disputas que têm forte dimensão política.
O Supremo é composto por ministros indicados politicamente, como prevê a Constituição. Dias Toffoli, por exemplo, antes de integrar a Corte, foi reprovado em concursos para a magistratura — fato público. Ainda assim, chegou ao posto máximo do Judiciário por trajetória vinculada à política institucional. Isso é permitido pelo sistema. Mas reforça a percepção de que o Supremo é também espaço de poder político.
Quando um inquérito atravessa três presidências e pode chegar à quarta, quando incorpora fatos desconectados, quando se projeta até 2027, o desconforto deixa de ser retórico. Torna-se estrutural.
Na saga da Marvel, o ponto central nunca foi apenas o poder acumulado por Thanos. Foi a pergunta que moveu os heróis: quem teria coragem de enfrentar o Titã Louco e retirar a manopla?
No Brasil real, a Constituição estabelece que ministros do Supremo podem responder por crime de responsabilidade. A atribuição para dar andamento a esse processo está no Senado Federal.
E aqui termina a metáfora e começa a realidade.
É fato público que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, responde a processos no próprio Supremo Tribunal Federal. Também é fato que esses processos não avançam com grande velocidade. Ao mesmo tempo, iniciativas que poderiam envolver ministros da Corte permanecem sem deliberação.
Quando quem deve agir depende institucionalmente de quem pode julgá-lo, cria-se um ambiente de conveniência silenciosa. E conveniência não é fundamento de República.
Mas toda saga chega ao fim. Até a da Marvel chegou.
Na ficção, os heróis enfrentaram Thanos quando o poder acumulado se tornou desmedido. Houve confronto. Houve decisão. Houve desfecho.
Na vida real, a pergunta é mais simples — e mais direta: Davi Alcolumbre vai assumir a responsabilidade que o cargo lhe confere?
É ele quem preside o Senado. É ele quem tem a prerrogativa de dar andamento a pedidos que envolvem ministros do Supremo. A questão não é se pode. É se vai.
Porque toda engrenagem institucional que gira por tempo demais sem definição exige, em algum momento, uma escolha.
E essa escolha, agora, tem nome.
FONTE: Felipe Vieira
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