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24/03/2026 às 12h18

Redação

Campo Grande / MS

Os segredos do STF
Quem dera o maior problema dos ministros do Supremo fosse o vazamento de dados, e não o que os dados vazados indicam sobre eles
Os segredos do STF
Foto arquivo

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) sacaram pela segunda vez desde julho de 2025, até onde se sabe, o “sigilo máximo” em um processo que tramita no tribunal.


Em julho do ano passado, Luís Roberto Barroso, então presidente do STF, assinou uma resolução que dispunha “sobre a tramitação eletrônica de processos sigilosos, a classificação dos níveis de sigilo e os procedimentos para proteção de informações processuais no Supremo Tribunal Federal”.


A partir de então, os processos passaram a ser classificados em quatro níveis de sigilo, “conforme a necessidade de restrição da publicidade das informações”:


O pretexto da mudança é evitar vazamento de dados.


O ministro Alexandre de Moraes (ao centro na foto) atribui ao vazamento de dados a revelação do contrato de 129 milhões de reais do Banco Master com o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, que o colocou no foco desse escândalo junto com Dias Toffoli (ao centro na foto).


Um dos dois processos que obtiveram o sigilo máximo do STF até agora — o Supremo ainda não informou quantos já foram classificados assim — levou para a cadeia preventivamente, em segredo, o contador Washington Travassos de Azevedo. Esse processo é relatado por Moraes.


O outro processo que obteve o sigilo máximo era relatado por Toffoli, que teve de abandonar a relatoria do caso Master após admitir que é sócio de uma empresa que fez negócios com o banco de Daniel Vorcaro. Os dados vazados do caso, como a conversa entre Vorcaro e a ex-namorada Martha Graeff, revelaram troca de mensagens entre o banqueiro e Moraes, entre outras coisas.


Sigilo para quem?


Azevedo, o contador preso, é um dos suspeitos de ter vazado dados de autoridades, entre elas ministros do STF. O contador foi alvo de busca e apreensão em 2 de março, passou a usar tornozeleira eletrônica quatro sias depois e foi preso em 13 de março.


Seu advogado reclama que ainda não teve acesso aos autos do processo.


A resolução do STF sobre o nível 4 de sigilo prevê que quem decide sobre o acesso é o relator do caso:


“No sistema de peticionamento eletrônico, as partes, os advogados, os procuradores e os órgãos, ainda que cadastrados na autuação do processo, não terão acesso aos dados e andamentos processuais omitidos nem à íntegra dos autos, salvo quando houver concessão de acesso individual pelo(a) Ministro(a) Relator(a)“.


Inquérito das fake news


A nova norma parece institucionalizar os procedimentos do inquérito das fake news.


Os advogados que atuaram no processo sempre reclamaram da falta de informações para poder defender seus clientes. E tudo piora quando se considera que não há recurso possível no STF, última instância da Justiça brasileira.


O Supremo esconde, hoje, as informações sobre o avanço do caso de dados vazados, mas fez questão de mencionar o nome de outros quatro suspeitos de vazamento, por meio de uma nota pública, ao anunciar que eles passariam a usar tornozeleiras eletrônicas e ficariam sem passaportes.


Ou seja, quem define o que deve ser revelado ou não — ou seria o caso de dizer vazado? — é o ministro do STF responsável pelo processo. Mas e se o sigilo beneficiar esse ministro?


O problema é o que os dados indicam


A preocupação do STF com o sigilo sobre informações sensíveis é louvável, mas os primeiros processos classificados como de nível 4 já deixaram bem claro os problemas da resolução.


No fim das contas, fica a impressão de que os grandes beneficiários do “sigilo máximo” são os próprios ministros do STF, o que não advoga exatamente em favor da medida.


Até porque o maior problema do Supremo, hoje, não é o vazamento de dados, mas o que os dados vazados indicam sobre seus ministros.

FONTE: Rodolfo Borges

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