26/03/2026 às 06h39
Redação
Campo Grande / MS
Há momentos em que não se indignar já é uma forma de concordar.
Não por falta de informação — mas por falta de coragem. É nesses momentos que a neutralidade deixa de ser virtude e passa a ser omissão — e a indignação deixa de ser um impulso emocional para se tornar um imperativo moral.
Indignar-se, no sentido mais profundo, não é gritar mais alto, nem aderir a slogans fáceis. É reconhecer, com clareza interior, que algo ultrapassou o limite do aceitável — e que permanecer indiferente é, de alguma forma, participar do erro. A indignação verdadeira não nasce do ódio, mas do senso de justiça.
Quando alguém é humilhado em público e todos ao redor silenciam, não há neutralidade — há consentimento passivo. A indignação, nesse instante, não é excesso. É o mínimo.
Ao longo da história, foram os indignados que moveram as fronteiras do possível. Aqueles que se recusaram a aceitar o que era considerado “normal”: a escravidão, a exclusão, a violência institucionalizada, a negação da dignidade humana. Sem indignação, há acomodação — e a acomodação perpetua o injusto.
Mas há um risco evidente: a banalização da indignação. Em tempos de redes sociais e polarização constante, tudo parece digno de revolta — e, ao mesmo tempo, nada realmente o é. A indignação se transforma em performance — um gesto rápido, visível, muitas vezes vazio — que substitui o pensamento pela reação e a responsabilidade pelo aplauso imediato.
Como imperativo moral, indignar-se exige mais — exige discernimento. Nem toda discordância é injustiça. Nem toda diferença de opinião é opressão. Quando tudo se torna motivo de indignação, perde-se a capacidade de reconhecer o que realmente importa.
Há também o perigo da indignação seletiva. Aquela que se ativa apenas quando convém às nossas crenças ou aos nossos grupos. Indignamo-nos com o erro do outro e relativizamos o erro do lado que consideramos “nosso”. Nesse ponto, a indignação deixa de ser ética — e passa a ser apenas conveniência disfarçada de virtude.
A verdadeira indignação é, por definição, desconfortável. Ela nos obriga a olhar não apenas para o mundo, mas para nós mesmos. Pergunta se estamos sendo coerentes, se estamos aplicando os mesmos princípios a todos, se não estamos também — ainda que de forma mais sutil — contribuindo para aquilo que criticamos.
O oposto da justiça não é apenas a injustiça — é a indiferença confortável que a permite.
Indignar-se, portanto, não é apenas reagir. É assumir responsabilidade. É recusar o cinismo que diz “sempre foi assim” e o conformismo que sussurra “não há o que fazer”. É, sobretudo, manter viva a capacidade de se afetar pelo sofrimento alheio — mesmo quando ele não nos atinge diretamente.
O perigo não começa quando o mal se impõe — começa quando ele deixa de nos incomodar.
Em uma sociedade saturada de estímulos e anestesiada pela repetição de injustiças, talvez o maior risco não seja o excesso de indignação, mas a sua ausência. O momento em que deixamos de nos indignar é, muitas vezes, o momento em que começamos a aceitar o inaceitável.
Uma sociedade não se mede apenas por suas leis, mas pelos limites que se recusa a aceitar. E esses limites começam, quase sempre, com um gesto simples — alguém que decide não se calar.
FONTE: David Gertner
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