08/04/2026 às 06h32
Redação
Campo Grande / MS
Houve um tempo em que a sátira exagerava a realidade. Hoje, ela apenas toma notas.
A cena pública global entrou em uma fase tão peculiar que o cronista, o ensaísta e o humorista político passaram a disputar o mesmo território narrativo: o da simples descrição dos fatos. O que antes exigia caricatura, hipérbole e ironia agora se apresenta espontaneamente, em estado bruto, nos discursos, nas instituições, nas redes e nos gestos mais solenes do poder.
Acredite se quiser: os defensores mais inflamados da liberdade frequentemente desejam apenas a liberdade dos que concordam com eles. Os paladinos da diversidade revelam notável dificuldade em conviver com a diversidade de pensamento. Os inimigos declarados da polarização alimentam dela sua energia vital, como se a moderação lhes retirasse oxigênio político.
Nada disso pertence a uma ideologia específica, a um país ou a uma cultura particular.
Tornou-se um idioma universal.
A contradição deixou de ser acidente e passou a ser método.
Fala-se em diálogo com o dedo já apontado. Invoca-se a democracia enquanto se prepara, em silêncio, a deslegitimação preventiva do resultado que desagrade. Clama-se por instituições fortes, desde que elas confirmem as próprias convicções. Celebra-se a pluralidade enquanto se organiza a exclusão moral do dissenso.
O mais curioso é que quase ninguém parece constrangido.
A incoerência perdeu seu custo reputacional.
Ao contrário: em muitos contextos, ela se tornou prova de pertencimento tribal. O que importa já não é a coerência entre princípios e conduta, mas a fidelidade à narrativa do grupo. A mesma ação pode ser celebrada como heroísmo ou condenada como escândalo, dependendo apenas de quem a pratica. A moral pública passou a operar menos por critérios e mais por alinhamentos.
Acredite se quiser: há quem denuncie a desinformação selecionando apenas os fatos convenientes. Há quem condene o autoritarismo enquanto reproduz, em pequena escala, métodos autoritários no trato com adversários, colegas, leitores ou cidadãos. Há quem se apresente como antissistema depois de décadas vivendo das engrenagens do próprio sistema.
Talvez a grande ironia do nosso tempo seja esta: nunca houve tanto discurso sobre valores e tão pouca disposição para testá-los quando eles nos contrariam.
A política contemporânea tornou-se especialista em virtudes condicionais.
Defende-se a liberdade, desde que.
Protege-se a verdade, desde que.
Respeita-se a lei, desde que.
Valoriza-se a democracia, desde que.
O “desde que” tornou-se a cláusula invisível do nosso tempo.
Ele permite que qualquer princípio sobreviva à sua própria negação.
O princípio continua em pé; muda apenas o alcance de sua aplicação.
E é justamente aí que a ironia deixa de ser apenas literária para se tornar ética. Porque o problema não está apenas na contradição em si, mas na naturalização de uma cultura pública em que a coerência passou a ser vista como ingenuidade, e a conveniência, como inteligência estratégica.
O mundo parece ter se acostumado à ideia de que todos dizem uma coisa e praticam outra.
Acredite se quiser: talvez este seja o maior triunfo da contradição contemporânea — não o fato de existir, mas o fato de já não surpreender.
Quando a incoerência deixa de causar espanto, ela deixa também de funcionar como alerta moral.
E talvez seja esse o ponto mais perigoso do presente: não o excesso de conflito, mas a banalização do paradoxo. A aceitação quase cínica de que princípios são apenas instrumentos retóricos, trocados conforme o vento, o ciclo eleitoral, a audiência ou a conveniência do dia.
No fim, a grande pergunta já não é quem está certo.
É se ainda somos capazes de reconhecer a diferença entre convicção e conveniência.
Talvez a lucidez, hoje, consista menos em escolher lados e mais em recuperar a capacidade de estranhar o que a conveniência transformou em normalidade.
FONTE: David Gertner
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