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13/04/2026 às 06h36

Redação

Campo Grande / MS

A fé incomoda o poder. A ciência explica o porquê.
*Claudio Apolinario
A fé incomoda o poder. A ciência explica o porquê.
Foto divulgação

Mais de 3.300 estudos científicos analisaram a relação entre fé e saúde ao longo de um século. O Handbook of Religion and Health, publicado pela Oxford University Press, chegou a uma conclusão que regimes autoritários já sabiam: quem pratica fé ativamente é mais difícil de manipular.


Menor depressão. Menor risco de suicídio. Maior resistência sob pressão.


Isso não é religião. É pesquisa. Não estou falando de crença. Estou falando de dados.


Passei anos acompanhando homens em crise. E vi o mesmo padrão se repetir: quando a fé era real, a pessoa não se entregava, mesmo depois que tudo desmoronava. A fé impedia o desmoronamento.


Mas tem uma forma de esvaziar a fé sem atacá-la. Regimes inteligentes não a proíbem visivelmente. Até falam de religião. O que fazem é mais sutil: anestesiam. Deixam a fé existir só como conforto, nunca como estrutura. E quando a fé dorme, os valores dormem junto.


O que parece inofensivo, na prática é devastador.


É por isso que regimes preferem uma fé de amuleto. De enfeite. Porque enfeite não organiza resistência. A fé que estrutura civilizações não espera o colapso para entrar em cena. Ela organiza a vida antes que o colapso aconteça. É a diferença entre quem reforça o telhado antes da tempestade e quem corre atrás de balde quando já está tudo molhado.


A ciência demorou para entender isso. Durante boa parte do século XX, a fé foi tratada como coisa de gente que não pensa. Os dados, porém, foram na direção oposta — e foram consistentes o suficiente para mobilizar pesquisadores de Duke (uma das principais universidades médicas dos Estados Unidos por mais de duas décadas).


O que eles encontraram é direto.


Quem vive a fé de verdade desenvolve propósito — um senso de significado que ultrapassa o próprio umbigo. Quando a vida tem sentido além de si mesmo, suportamos mais. Cedemos menos. Decidimos com mais firmeza.


David DeSteno, psicólogo da Northeastern University, demonstrou em pesquisa controlada que gratidão reduz a disposição das pessoas de mentir mesmo quando há vantagem imediata em jogo. O mecanismo é direto: gratidão cria uma âncora moral por dentro. Quem reconhece que recebeu algo não consegue trapacear para ganhar mais sem um custo interno. A fé alimenta exatamente esse estado — e por isso forma pessoas mais difíceis de corromper.


Junto com isso vem o limite. A fé vivida comunica que existem linhas que não podem ser cruzadas. Não porque a lei proíbe. Não porque alguém está olhando. Porque há um código anterior a qualquer norma e posterior a qualquer conveniência. Um homem que sabe o que não fará — independente do que ganhe ou perca — é muito difícil de comprar.


Depois vem a responsabilidade. A fé cristã não produz passividade. Produz dever. A lógica de que cada um responde pelo que fez com o que recebeu é incompatível com a terceirização de culpa que alimenta o populismo. Quem foi formado assim não transfere para o Estado o que é sua responsabilidade.


E por último, comunidade. Redes religiosas criam vínculos de lealdade que resistem à manipulação do poder. Não têm um ponto único de controle. Por isso incomodam tanto quem quer controlar tudo.


Propósito. Limite. Responsabilidade. Comunidade. São o que permite que uma família se sustente sob pressão, que um pai permaneça quando seria mais fácil ir embora, que um profissional ou funcionário público recuse o suborno quando seria mais rentável aceitar.


Agora você entende por que regimes de dominação sempre atacam a fé primeiro?


Não é superstição. É estratégia.


Entre 1917 e 1935, 130.000 sacerdotes foram presos na União Soviética. Noventa e cinco mil foram executados. Na China de Mao Tse-tung, templos foram demolidos sistematicamente. O objetivo nunca foi religioso. Foi sempre político.


Porque a fé que forma caráter não se submete facilmente.


Fé que cria comunidade não tem dono. E o que não tem dono não se confisca.


Fé que ensina responsabilidade não terceiriza suas convicções para o Estado.


Isso incomoda o poder. Sempre incomodou.


A fé não é o lugar onde os fracos se escondem. É o lugar onde os firmes se formam.


*       O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político

FONTE: Claudio Apolinario

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