17/04/2026 às 06h35
Redação
Campo Grande / MS
Houve um tempo em que bastava uma criança para dizer o óbvio.
Hoje, nem isso parece suficiente.
Na velha fábula, todos viam o rei desfilar coberto por um traje inexistente. Diziam admirar o brilho, a elegância, a sofisticação do tecido invisível. Ninguém ousava dizer o que os olhos percebiam com clareza: o rei estava nu. Não por ignorância coletiva, mas por medo. Medo de parecer tolo, desinformado, inadequado. Medo de não pertencer.
Séculos depois, o cenário mudou pouco.
O rei continua desfilando.
Agora, não mais em praças, mas em telas.
Não mais acompanhado por alfaiates farsantes, mas por consultores, marqueteiros, analistas, influenciadores — e narrativas cuidadosamente embaladas.
O traje continua inexistente.
Mas é apresentado como majestoso.
Discursos inflamados substituem tecidos.
Slogans ocupam o lugar das joias.
Promessas recicladas são vendidas como novidades históricas.
E a encenação segue, protegida por um consenso artificial: se todos aplaudem, deve haver algo ali.
O problema não é a mentira em si.
Mentiras sempre existiram.
O problema é a dificuldade crescente de enxergar a nudez, mesmo quando ela se torna evidente.
Por quê?
Porque admitir que o rei está nu exige mais do que visão — exige coragem.
Exige reconhecer que fomos enganados.
Que acreditamos em palavras ocas, em símbolos vazios, em gestos que simulam grandeza enquanto escondem decadência.
O traje majestoso, quando examinado de perto, revela-se o que sempre foi: nada.
Não cobre o corpo.
Não disfarça a idade das ideias.
Não oculta uma identidade política cansada, ultrapassada, retrógrada, incapaz de responder aos desafios do presente.
Ainda assim, muitos preferem elogiar a costura inexistente.
Preferem repetir a narrativa oficial a encarar o constrangimento da verdade.
Porque dizer “o rei está nu” hoje tem um preço: isolamento, rótulos, acusações morais.
Na fábula, a nudez era física.
Na política contemporânea, ela é intelectual, ética — e estrutural.
Faltam ideias novas.
Falta coerência.
Falta responsabilidade.
Mas sobram discursos performáticos, indignação seletiva e uma estética de poder que tenta compensar o vazio de conteúdo.
O mais trágico é que, enquanto todos discutem o brilho do traje imaginário, o reino permanece sem rumo.
Problemas reais não se resolvem com retórica.
Crises profundas não se enfrentam com encenação.
Talvez não precisemos mais de uma criança para apontar o óbvio.
Precisamos de adultos dispostos a aceitar o desconforto da lucidez.
Porque o rei não está nu apenas porque foi enganado.
Ele está nu porque já não tem nada a oferecer além da própria encenação.
E continuar aplaudindo não o veste.
Apenas nos expõe.
FONTE: David Gertner
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