22/04/2026 às 06h27 - atualizada em 22/04/2026 às 07h50
Redação
Campo Grande / MS
Flávio Dino apresentou uma ampla proposta de reforma do Poder Judiciário como alternativa à autocontenção do Supremo Tribunal Federal (STF), defendida pelo presidente Edson Fachin.
As propostas de Dino não são ruins. O sistema judicial brasileiro precisa mesmo de melhorias, para acelerar decisões e combater “o assombroso crescimento das facções criminosas”, como ele alega.
O problema do longo artigo em que o ministro indicado por Lula apresenta suas 15 propostas da “Nova Reforma do Judiciário” é que ele não passa de mais uma cortina de fumaça para preservar os comportamentos suspeitos dos juízes do Supremo, emparedados pelo escândalo do Banco Master.
Como destacou o procurador da República Helio Telho em seu perfil no X, não há na proposta do ministro do STF “nada sobre escritórios de parentes vendendo acesso a magistrados”.
E também não há “nada sobre contratos de parentes com pessoas que tem causas sob julgamento do magistrado; nada sobre magistrado julgando causa patrocinada por escritório de parente; nada sobre patrocínios de eventos de magistrados; nada sobre supremos julgarem causas próprias; nada que enquadre deslizes dos juízes do planalto, só tropeços de juízes da planície”.
Vendo seu time ser pressionado por todos os lados dentro da própria área, o atacante do STF Futebol Clube, como o próprio Dino teria se referido ao Supremo na famigerada reunião sobre os rolos de Dias Toffoli com o Banco Master, se jogou na área adversária tentando cavar um pênalti.
A intenção é claramente ludibriar a audiência, sempre colocando os ministros do STF na posição de vítimas, como o decano do tribunal, Gilmar Mendes, fez nos últimos dias ao pedir investigações sobre o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e o ex-governador Romeu Zema (Novo).
Por mais que possa solucionar problemas existentes, ao sugerir, por exemplo, a “revisão do capítulo do Código Penal sobre os crimes contra a Administração da Justiça, inclusive criando tipos penais mais rigorosos para corrupção, peculato e prevaricação envolvendo juízes, procuradores, advogados (públicos e privados), defensores, promotores, assessores, servidores do sistema de Justiça em geral”, a proposta de Dino não passa de um subterfúgio para desviar a atenção dos problemas mais urgentes e, assim, manter o criticável funcionamento do STF da mesma forma.
Prova disso é que nenhuma das propostas do ministro conflita com a autocontenção. Seria possível fazer tudo o que Dino propôs e, ao mesmo tempo, diminuir o protagonismo político do tribunal.
A proposta não conflita sequer com a aprovação de um código de ética para os ministros, em elaboração atualmente por Cármen Lúcia. Mas Dino prefere manter as coisas como elas estão.
O ex-ministro da Justiça de Lula já disse várias vezes que o ativismo judicial “é uma marca do nosso tempo, que veio para ficar“. Ele enxerga o Judiciário como um poder moderador.
“Se a política não consegue resolver os problemas, isto vai para algum lugar no mundo”, argumentou durante o Fórum Jurídico de Lisboa, o popular Gilmarpalooza, do ano passado.
Pode ser que esse seja mesmo o papel do STF atualmente, mas isso implicaria em concessões e sacrifícios que alguns de seus ministros não parecem dispostos a fazer.
E as consequências para seus comportamentos suspeitos virão em algum momento, ainda que parte da torcida e da arbitragem acredite quando os ministros do STF Futebol Clube se jogam na área ao sentirem o mais sutil toque de uma sátira.
FONTE: Rodolfo Borges
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