04/05/2026 às 09h05
Redação
Campo Grande / MS
Não estamos diante de desvios pontuais nem de falhas que o próprio sistema corrige com o tempo. O que se observa, em diferentes sociedades que continuam a se apresentar como democráticas, é um deslocamento mais profundo: a lei permanece, as instituições funcionam, os ritos são respeitados — mas o seu sentido é progressivamente alterado. Em vez de limitar o poder, a estrutura jurídica passa a ser utilizada para protegê-lo, administrá-lo e, em muitos casos, perpetuá-lo.
Esse processo não ocorre por ruptura, mas por transformação interna. Nomeações seguem procedimentos formais, decisões são tecnicamente justificadas, órgãos de controle mantêm sua arquitetura. No entanto, à medida que critérios de mérito e independência cedem lugar à conveniência política, instala-se algo mais corrosivo do que a ilegalidade aberta: a dúvida consistente sobre a imparcialidade. E, quando a imparcialidade se torna incerta, a própria ideia de justiça deixa de operar como referência comum.
A partir desse ponto, a aplicação da lei deixa de ser uniforme e passa a ser calibrada. O rigor que se observa em determinadas situações não se reproduz em outras; a cautela, que em alguns casos se apresenta como prudência institucional, em outros funciona como mecanismo de proteção. Essa assimetria raramente é declarada, mas é amplamente percebida — e, uma vez percebida, altera o fundamento do sistema: a igualdade perante a lei deixa de ser uma experiência concreta e passa a ser uma expectativa condicional.
Nesse ambiente, a corrupção deixa de ser apenas o desvio evidente de recursos e se transforma em algo mais sofisticado e mais difícil de enfrentar: a utilização deliberada das próprias regras para reduzir riscos, proteger aliados, acomodar interesses e garantir continuidade. Não se trata apenas de violar a lei, mas de operá-la estrategicamente, explorando suas brechas, ampliando suas ambiguidades e testando seus limites até o ponto em que a forma permanece intacta, mas o conteúdo já foi distorcido.
É assim que a máquina pública muda de função. O que deveria ser instrumento da sociedade passa a ser, progressivamente, instrumento de autopreservação política. Decisões são ajustadas para evitar custos, normas são interpretadas para acomodar interesses, mecanismos de controle são acionados ou contidos conforme a conveniência. A lei não desaparece; ela é incorporada como ferramenta de gestão do poder.
O impacto desse deslocamento sobre os direitos civis é inevitável. Direitos que deveriam operar como garantias universais passam a ser interpretados à luz do contexto político, do momento e da posição do indivíduo dentro do sistema. A proteção se torna variável, a aplicação oscila, e aquilo que deveria limitar o poder passa a depender dele. Nesse ponto, os direitos deixam de cumprir sua função essencial: deixam de ser limites e passam a ser concessões. E concessões, por definição, podem ser retiradas.
Ao mesmo tempo, enfraquece-se a relação entre decisão pública e conhecimento verificável. Evidências passam a ser selecionadas, reinterpretadas ou descartadas conforme interesses de curto prazo; a ciência deixa de orientar e passa a ser mobilizada; o que deveria servir de base para a decisão se torna apenas um recurso dentro dela. O resultado não é apenas erro de política pública, mas a institucionalização da arbitrariedade sob aparência de racionalidade.
Nada disso se impõe de forma abrupta. Esse tipo de sistema não se declara — ele se instala. Avança por meio de ajustes graduais, decisões justificáveis isoladamente, exceções que parecem técnicas, mas que, acumuladas, redefinem o padrão. O que antes seria inaceitável passa a ser discutido; o que é discutido passa a ser tolerado; o que é tolerado passa a ser incorporado. E, quando incorporado, deixa de ser percebido como desvio.
É assim que se forma uma cadeia de transgressões que não rompe com o sistema, mas passa a operar dentro dele, beneficiando aqueles que melhor dominam suas regras e suas ambiguidades. Políticos que agem em desrespeito ao espírito da lei — ainda que protegidos por sua forma — deixam de ser exceção e passam a ser parte de uma lógica que se autoalimenta. Não se trata mais de episódios isolados, mas de um padrão que favorece a continuidade e reduz o custo da transgressão.
Para o cidadão comum, o efeito não é abstrato. A confiança se deteriora, não por um evento específico, mas por acúmulo. A previsibilidade desaparece, a proteção jurídica se torna incerta, a sensação de justiça se enfraquece. O sistema continua funcionando, mas já não oferece a segurança que justifica a sua existência.
Diante disso, não basta descrever o problema. É necessário enfrentá-lo.
É preciso restabelecer critérios inequívocos de transparência, independência e responsabilização. Transparência não como exposição seletiva de informações, mas como compromisso com a integridade dos processos. Independência não como retórica, mas como prática verificável em nomeações, decisões e condutas. Responsabilização não como espetáculo ou instrumento de disputa, mas como aplicação consistente da lei, com devido processo e sem seletividade.
Quando instituições deixam de cumprir esse papel, não basta registrar o desvio. É necessário corrigi-lo — e corrigir, nesse contexto, significa recuperar a coerência entre regras e princípios e reafirmar que o poder está subordinado à lei, e não o contrário.
Sem isso, o sistema não entra em colapso.
Ele continua operando.
Mas passa a operar para si mesmo.
E, nesse ponto, a pergunta deixa de ser “que fim levou?”
Resta apenas uma, mais direta — e mais incômoda:
que fim levou o pudor institucional?
David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, vive nos Estados Unidos há mais de três décadas. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e prepara novos livros para lançamento. Escreve sobre ética, identidade, tecnologia e a condição humana. Mais em www.davidgertner.com
FONTE: David Gertner
Há 3 horas
Ex-ministro de Lula defende que PCC e CV são grupos terroristasHá 3 horas
Team Roping reúne competidores e consagra campeõesHá 7 horas
Gerson recebe título de Cidadão TreslagoenseHá 9 horas
Verruck recebe diagnóstico de comerciantes para fortalecer Centro da CapitalHá 10 horas
Oficina É Dia de Feira leva novas estratégias para negócios de Ladário