De cara a sensação era de que a melhora seria automática. Afinal, conforme a McLaren e seus pilotos gostavam de ressaltar durante os últimos anos, o chassi era muito bom e mostrava desempenho em pistas onde a força do motor era menos decisiva. Confiabilidade e potência da unidade de força eram os atributos que separavam o time de Woking das primeiras colocações.
Todo o otimismo dos últimos meses começou a ser posto em prática no decorrer das semanas que passaram entre fevereiro e março, durante oito dias de testes coletivos de pré-temporada em Barcelona. O que se viu foi ao mesmo passo encorajador e preocupante.
Encorajador porque o ritmo que a Honda jamais teve, como esperado, a Renault tem. Mesmo atrás das ponteiras Mercedes, Ferrari e Red Bull - essa última, aliás, dotada do mesmo propulsor -, a McLaren oferece a capacidade de lutar com a equipe de fábrica da parceira francesa, bem como com a Force India. Sobretudo nas três primeiras etapas da temporada da F1, na Áustrália, Bahrein e China, será notabilizado se a McLaren luta de fato para ser a quarta força em 2018.
A parte da preocupação está nos constantes deslizes de confiabilidade. Se não necessariamente no motor,
o carro da McLaren viveu diversos problemas tanto com Alonso quanto com Stoffel Vandoorne. Não foram tão graves quanto aqueles vistos nos últimos anos, é bem verdade, mas numa temporada onde a disponibilidade de trocas na unidade de força é ainda menor que em 2017, bem, alguns problemas insistentes serão a diferença entre bons pontos e fim do grid.
Aliado a isso, a McLaren se depara com uma Honda renovada. Os japoneses costuraram um rápido acordo com a Toro Rosso para fazer da pequena escuderia italiana sua equipe oficial na F1 - e se pôr como opção real à Red Bull para o ano que vem. Em Barcelona, o motor japonês praticamente não mostrou defeitos. Apesar de ainda faltar desempenho inicial, expôs a questão que circunda o ano da McLaren neste começo:
e se a Honda for superior?
Alonso tem mais o que fazer neste ano e no próximo. Já correu as 24 Horas de Daytona como teste e agora passará a dividir o tempo com a Toyota e o Mundial de Endurance, inclusive com as 24 Horas de Le Mans. E ninguém discute que ele pensa grande, quer ganhar no WEC e ainda pensa em Indianápolis quando coloca a cabeça no travesseiro. Mas não é só nisso que ele pensa.
Alonso, bicampeão da F1 muito jovem, em 2005 e 2006, viveu na crista do mundo da F1. Michael Schumacher estava fora de cena e ninguém parecia desafiá-lo de perto. Naquele momento, agora já mais de uma década no retrovisor, Fernando movia montanhas e multidões e fazia com que fosse esperado o começo de uma Era Asturiana na F1. Mas o terceiro título nunca veio.
Apesar de todas as glórias, todo o espaço fora de lá e as vontades reais de ostentar a Tríplice Coroa, Alonso ainda não desapegou da F1. Alguma coisa na ligação quase umbilical entre Fernando e o Mundial ainda não apagou, não fendeu e mantém os dois grudados. Alonso quer provar que não desperdiçou as esperanças dos últimos 12 anos; a F1 gostaria de ver Alonso mostrar que os pilotos importam mais que os carros.
Os dois ainda precisam um do outro, resta saber por quanto tempo podem esperar.