01/05/2024 às 19h53
Redação
Campo Grande / MS
Todo mundo que tem mais de 40 anos sabe onde estava no dia em que morreu Ayrton Senna. Eu estava no apartamento da Rua Cacilda Becker e me lembro perfeitamente da imagem de Leo Batista confirmando ao vivo a notícia da morte do tricampeão. O apresentador, sempre alegre e sorridente, pela primeira e única vez tinha a voz pesarosa e a expressão consternada.
Naquela tarde de domingo, Palmeiras e São Paulo se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro. Antes do jogo, enquanto a multidão gritava “Senna! Senna! Senna!”, os jogadores se ajoelhavam em campo. A cena dos jogadores ajoelhados me comoveu profundamente, e por alguns momentos eu fui retirado da prisão ateísta em que vivia na época.
As cenas do funeral acompanhado por milhões de pessoas – lembro-me especialmente do pranto de um bombeiro no carro – mostraram que aquela não era apenas a morte de um piloto, mas de certa maneira a síntese da tragédia de um país.
O fatídico domingo, 1º de maio de 1994, em que Ayrton encontrou a morte na curva Tamburello, durante o GP de San Marino, ficou sendo uma espécie de ferida na alma do povo brasileiro.
Os feitos de Ayrton não se resumem aos 90 pódios e ao tricampeonato mundial nas temporadas de 1988, 1990 e 1991. Senna era uma espécie de compensação por todas as decepções que o Brasil vinha sofrendo na primeira década da “Nova República”. As manhãs de domingo e o famoso grito – “Ayrton Senna do Brasil!” – eram refrigérios para um povo cansado de derrotas no plano político, econômico e cultural – uma situação muito parecida com a que estamos vivendo agora.
À diferença de hoje, no entanto, em 1994 nós sofríamos e não sabíamos como expressar nosso sofrimento. As vitórias de Senna eram um sopro de alegria diante de tribulações como uma inflação de 171.616.718.975.800% em 20 anos. León Bloy dizia que o acaso é o nome moderno do Espírito Santo. Não chamemos de acaso, portanto, o fato de que, após a morte de Senna, o Brasil finalmente conseguiu vencer esse monstro devorador de vidas. Se vencemos a inflação, por que não podemos vencer a ditadura?
Senna, de fato, foi um herói, no sentido que seus feitos se perpetuam para além de seu tempo de vida. Trinta anos depois, ele segue sendo um raro exemplo de homem virtuoso em um país tão carente de modelos existenciais. Nunca precisamos tanto da coragem, da generosidade, da obstinação e da disposição para o sacrifício de Ayrton Senna do Brasil.
FONTE: Paulo Briguet
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