02/04/2025 às 12h09 - atualizada em 02/04/2025 às 12h18
Redação
Campo Grande / MS
Em sessão realizada na Câmara dos Deputados em homenagem aos 60 anos do Banco Central nesta terça-feira, 1 de abril, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, justificou a alta dos juros, criticada por vários deputados federais, alegando que a política monetária no Brasil precisa ser mais dura que a de outros países para obter os mesmos efeitos.
Indicado por Lula para a sucessão de Roberto Campos Neto, que havia sido indicado por Jair Bolsonaro para o cargo, Galípolo tentou valorizar pontos positivos do atual cenário econômico, embora a percepção de piora da economia seja uma das causas da queda de popularidade do presidente da República.
“A economia brasileira vem apresentando ou apresentou recentemente a queda mais rápida da sua taxa de desemprego e a menor taxa de desemprego da série histórica, um dos maiores crescimentos do rendimento das famílias e também a máxima da série histórica.
Isso sugere que, talvez, os canais de transmissão da política monetária não funcionem aqui no Brasil com a mesma fluidez que costuma funcionar em outros países, e que eventualmente você precisa dar doses maiores de remédio para conseguir o mesmo efeito”, disse o presidente do Banco Central.
Ele também criticou “subsídios cruzados” como “perversos e regressivos”.
“Eu acho que existe um tema que perpassa toda a política econômica do Brasil: monetária, fiscal e todas as demais. É importante a gente normalizar a política monetária para poder superar um ‘equilíbrio’ entre aspas que a gente montou, onde alguns grupos conseguem exceções para pagar menos, enquanto uma grande maioria é obrigada a pagar mais em compensação. Nós temos uma série de subsídios cruzados, perversos e regressivos na sociedade brasileira. E talvez para nós, do Banco Central, esses tradeoffs, como a gente costuma chamar, esses ônus e bônus, essas trocas, sejam mais evidentes”, afirmou Galípolo.
A velha culpa da comunicação
O presidente do BC reforçou que seu compromisso com a meta de inflação é “inabalável” e que o desafio da instituição é a comunicação fundamentada das suas decisões.
“É natural: todo mundo gostaria de ter o melhor dos mundos, todo mundo gostaria de poder receber o benefício dos dois lados. Mas cabe à gente, também, enquanto Banco Central, explicar, poder transparecer e discutir melhor essas questões com a sociedade. Esse é um dos principais desafios da autoridade monetária: o tema da comunicação, que é um tema absolutamente novo para a autoridade monetária. Até meados dos anos 1990, mesmo as autoridades monetárias das principais economias do mundo não comunicavam nem suas decisões de política monetária”, disse o Galípolo, enfatizando que agora é preciso dialogar com “um público mais amplo” e que “cabe à gente do BC explicar o que faz e por que faz”.
A análise das declarações
Bruno Musa, colaborador do portal O Antagonista em matéria de economia, comentou o discurso do presidente do Banco Central:
“No Brasil, precisamos de doses maiores de juros porque quase metade do crédito não é livre e sim subsidiado, patrocinado pelo governo junto com bancos públicos. Tudo isso acelera a atividade econômica no curto prazo e, para ter efeito na queda da inflação, o BC precisa subir mais os juros, pois precisa atacar o imenso credito disponível com juros subsidiados, que aumenta a dívida pública.
Gastos públicos exorbitantes, impostos altíssimos, mercado fechado e privilégios para grupos próximos ao poder acabam por encarecer toda a estrutura econômica.
Será que não seria necessário Galípolo afirmar que a política do governo atual é completamente maléfica para o valor da moeda e, portanto, inflacionária? Seguimos dando murros em ponta de faca e não tendo coragem de atacarmos de frente os reais problemas que são as contas e gastos públicos irresponsáveis.”
FONTE: Felipe Moura Brasil
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