24/04/2025 às 11h08
Redação
Campo Grande / MS
Enquanto o governo federal brasileiro adota uma postura diplomática cautelosa e até crítica em relação à administração norte-americana de Donald Trump, as Forças Armadas brasileiras seguem uma rota distinta, estreitando cada vez mais seus laços com o Exército dos Estados Unidos. Um levantamento recente indica que, desde 2018, o Exército Brasileiro realizou 61 exercícios militares com os EUA, número amplamente superior ao registrado com qualquer outro país. O segundo maior parceiro, o México, aparece com 16 atividades conjuntas, Canadá aparece com 11 atividades conjuntas, Guatemala (7) e Honduras (6).
A intensa agenda de treinamentos conjuntos revela uma inegável afinidade institucional e estratégica consolidada, que transcende conjunturas políticas. O caso do coronel brasileiro Sergio Reis Matos ilustra bem esse cenário. Desde 2023, ele atua como oficial de ligação junto ao Comando Sul do Exército dos EUA, sendo considerado como uma peça-chave na promoção da interoperabilidade e coordenação entre as duas forças armadas.
“É imperativo reconhecer os 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Minha posição aqui demonstra o compromisso em aprimorar essa relação histórica e aumentar a interoperabilidade entre nossos exércitos”, destacou o coronel Matos em entrevista publicada pelo próprio Exército norte-americano.
A afinidade se materializa com frequência em treinamentos conjuntos de alto nível, como o Leadership Training Program (LTP) realizado no Joint Readiness Training Center (JRTC), em Fort Johnson, Louisiana. A atividade, ocorrida em 2024, preparou oficiais brasileiros para integrar operações ao lado da 101ª Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA no gigantesco exercício CORE 24, com foco em operações aeromóveis.
Durante uma semana inteira, oficiais dos dois países participaram de planejamentos de Estado-Maior supervisionados por veteranos com experiência em combate real. A experiência buscou padronizar estratégias e fortalecer a capacidade de resposta conjunta em situações de combate convencional.
O exercício CORE (Combined Operation and Rotation Exercise) representa o maior símbolo da parceria militar fraterna entre Brasil e EUA. Desde 2021, quando foi firmado um acordo após o exercício Culminating, estão previstas operações bilaterais anuais até 2028, alternando os países-sede. O Brasil já sediou edições em São Paulo, Pará e Amapá, enquanto os EUA receberam tropas brasileiras no mesmo ambiente onde operam suas unidades de elite.
A Força de Prontidão do Exército Brasileiro, composta por tropas treinadas e certificadas como unidades de pronta resposta, é a principal protagonista nacional nesses treinamentos. Em 2024, a representação brasileira no CORE foi na Companhia de Fuzileiros do 52º Batalhão de Infantaria de Selva (52º BIS), com sede em Marabá (PA).
Em 2020 o Brasil realizou 12 exercícios militares com membros das Forças Armadas norte americanas, entre eles o Exercício Amazônia e a competição Força Comandos.
Cooperação militar – aliança que vai além da política
Quem olha o site do Comando Sul dos Estados Unidos nessa última semana de abril de 2025 percebe a reportagem de capa que exalta a amizade e cooperação entre os militares dos EUA e os militares do Exército Brasileiro. A mensagem, sobre a fotografia de militares brasileiros em operação ocorrida faz algum tempo, diz: “O Exército do Sul faz parte de uma equipe americana e multinacional que trabalha para promover a segurança e a estabilidade em toda a América Central e do Sul e no Caribe, a fim de proteger nossos valores e modo de vida compartilhados".
Embora a diplomacia brasileira com frequência demonstre desconforto com a retórica de Donald Trump, os militares não parecem afetados por essa tensão. Pelo contrário, seguem reforçando a ideia de que a cooperação militar e aliança estratégica com os EUA é fundamental para a segurança hemisférica e para a capacitação das tropas brasileiras.
A coexistência de discursos divergentes entre a cúpula do Executivo e as ações práticas da cúpula militar ressalta a autonomia das Forças Armadas brasileiras em sua agenda internacional de defesa. Trata-se de uma política externa paralela, aparentemente estanque à influência do Palácio do Planalto, mas plenamente justificada pela convergência de interesses operacionais e geoestratégicos entre os dois países.
Com dezenas de exercícios conjuntos, oficiais integrados em comandos estratégicos e programas anuais de cooperação militar, a afinidade entre os militares do Brasil e dos EUA vai além da retórica política e se consolida como um dos pilares da atuação internacional do Exército Brasileiro.
Contagem de Exercícios Militares por País desde 2018
| País | Quantidade de Exercícios |
| EUA | 50 |
| Canadá | 11 |
| México | 16 |
| Guatemala | 7 |
| Honduras | 6 |
FONTE: Sociedade Militar
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