12/06/2025 às 07h55
Redação
Campo Grande / MS
Dia desses li um relatório intitulado “Um Pesadelo para Trabalhadores”, relativo às condições sob as quais são produzidos alguns brinquedos. A fonte de dados: quatro grandes empresas transnacionais que operam na China.
Apurou-se que os escravos, digo, os trabalhadores destas impolutas empresas recebem menos de um Euro por hora. Resolvi fazer algumas contas e cheguei a uns sete Euros por uma jornada de trabalho de oito horas. Como eles trabalham seis dias por semana, receberão por cada uma delas algo em torno de 42 Euros.
A “saída” para melhorar os rendimentos são as horas extras – 175 por mês em média, ultrapassando umas cinco vezes o limite legal. Apurou-se que nos momentos de maior produção as jornadas chegam a 11 horas diárias – lembrando sempre serem seis dias por semana.
A investigação revelou, igualmente, que faltam equipamentos básicos de segurança, considerado o manuseio de produtos químicos altamente nocivos para a saúde – as consequências vão de envenenamentos até leucemia.
Como a maioria dos escravos, digo, trabalhadores, vem do interior, a possibilidade de uma moradia digna é remota, considerado o “salário” que recebem – assim, sujeitam-se a dividir uma senzala, digo, um quarto, com em média outros sete infelizes. Algumas dessas dependências sequer de água quente dispõem.
A maior partes destes escravos, digo, trabalhadores, são mulheres na faixa dos 45 anos de idade, reputadas mais dóceis e preocupadas com seus filhos. Os “contratos de trabalho” são assinados em branco.
Aos resultados: uma boneca feita ali é vendida por 39 Euros na Europa. O custo de produção: 16 Euros. O que recebe por ela cada escravo, digo, trabalhador: 0,01 Euro.
Foram empresas assim que destruíram, aniquilaram, arrasaram e massacraram larga parte do parque industrial brasileiro. Foi por conta delas que muitos brasileiros perderam seus empregos. Dizem alguns ter sido obra de uma certa “globalização”. Isto não é verdade. Afinal, sem que haja competição justa não se pode falar em globalização – apenas em exploração pura e simples.
Dizem alguns que em 1888 lançou-se na ilegalidade a escravidão. Será que esta, por vias oblíquas, ainda não está a ser praticada em solo tupiniquim? Afinal, que estranho país seria este que declara-se inimigo da escravidão mas não do que esta produz?
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo
FONTE: Pedro Valls Feu Rosa
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