27/05/2026 às 09h03
Redação
Campo Grande / MS
O governo Lula entrou em 2026 tentando sustentar um discurso de responsabilidade fiscal enquanto amplia benefícios, crédito subsidiado e programas de estímulo ao consumo em ritmo de ano eleitoral.
A avaliação aparece em relatório da Lev Intelligence, que aponta um descompasso entre a meta fiscal apresentada oficialmente e o tamanho real do impulso econômico promovido pelo governo.
O documento estima que o problema fiscal mais visível esteja entre 100 bilhões e 150 bilhões de reais, mas afirma que o pacote completo de estímulos, incluindo renúncias tributárias, crédito direcionado, subsídios e programas sociais, pode movimentar entre 200 bilhões e 300 bilhões de reais.
Entre as medidas listadas estão a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, crédito consignado privado, expansão do Minha Casa Minha Vida, renegociação de dívidas pelo Desenrola e subsídios em energia e gás de cozinha.
O objetivo dessas medidas é sustentar renda, consumo e atividade econômica em um momento de desaceleração e pressão sobre a popularidade do governo.
A análise da Lev ocorre em um momento em que o mercado financeiro voltou a revisar para cima as projeções da dívida pública e do déficit nominal.
Dados do Banco Central mostram que o déficit nominal acumulado em 12 meses segue um pouco acima de 8% do PIB, enquanto a dívida bruta continua em trajetória de alta. O relatório projeta que ela poderá alcançar 86% do PIB em 2027.
O estudo também afirma que parte relevante das despesas fica fora da fotografia fiscal usada para medir a meta oficial, especialmente os precatórios.
Na prática, isso permite ao governo apresentar um resultado primário menos negativo enquanto a pressão sobre a dívida continua crescendo.
Além disso, o relatório destaca que a LOA, sigla para Lei Orçamentária Anual, prevê um superávit primário contábil de 34 bilhões de reais, mas, ao ajustar pelos precatórios excluídos da meta (cerca de 58 bilhões), o resultado já se transforma em déficit de aproximadamente 23 bilhões. O mercado, por sua vez, espera um déficit primário maior, próximo de 58 bilhões.
O texto ainda ressalta o forte componente eleitoral, com emendas parlamentares totais na casa de 61 bilhões de reais e fundo eleitoral de outros 5 bilhões, além das renúncias tributárias projetadas em 613 bilhões de reais, 4,4% do PIB, pesando no desequilíbrio fiscal brasileiro.
O efeito mais imediato desse cenário aparece nos juros. Com gasto público elevado e estímulos ao crédito, o Banco Central encontra menos espaço para iniciar cortes mais intensos na Selic.
A Selic está em 14,50%, um nível elevado usado pelo BC para conter o consumo e tentar desacelerar a inflação, nesse cenário de estímulos fiscais, expansão do crédito e ainda a pressão adicional causada pela alta do petróleo após a escalada do conflito envolvendo o Irã.
O país deve entrar em 2027 com dívida mais alta, orçamento comprimido e menor margem para qualquer ajuste fiscal sem um desgaste político maior.
FONTE: José Inácio Pilar
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